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29 de abril de 2014

Regresso

A luz dos faróis projecta-se na porta, ao centro do prédio branco, chamando a atenção a barra amarela à volta das janelas.
Sobe o olhar, o número sete é reconfortante. Antes de entrar, aspira o odor de lenha queimada, adivinhando gente ao redor da lareira nas casas vizinhas. Cães ladram ao longe, salpicando o silêncio da noite.
No hall, o cheiro de plantas regadas. Abre a porta sem pressa. Pétalas de rosas secas fazem esquecer o silêncio da casa. Um pequeno corredor à direita e, outro que termina na divisão desejada.
Sem estilo definido, móveis com história de família, convivem com estantes repletas de livros que aconchegam. Do exterior da janela, adivinha-se a relva aparada. A cama, convida ao sonho desperto.
A enorme cama de tubo preto, lembrando ferro, enche o olhar da divisão. Ladeada de mesinhas de cabeceira com tampo de mármore, espelho, pés altos e compartimento onde, na geração anterior se colocava o bacio de porcelana, contam quase um século na família, assim como a cómoda castanha que juntas, há muito aguardam restauração a rigor. Na parede, sobre a cómoda, um espelho emoldurado, aproveitamento do roupeiro dos avós maternos que não resistiu ao passar dos anos.
Aos pés da cama, estantes com o mesmo tom, repletas de livros, uns ordenados alfabeticamente ou por temas, outros ao acaso.
A escrivaninha junto à janela, ocupa grande parte da única parede que dá para o exterior, onde o sol permanece até se esconder.
No canto oposto, a mesinha de chá, pertença da avó Alice, onde convivem fotografias de pessoas em momentos felizes.

F.A. Outubro 2009

5 de novembro de 2013

Ponto a Ponto

Odete - Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos

" Com o decreto de lei de expulsão das minorias muçulmana e judaica, em 1496 (logo no ínicio do reinado de D. Manuel I) e o encerramento das oficinas da comuna muçulmana de Lisboa, crê-se que esses mesmos mouros e judeus teriam migrado para Sul do território, historicamente mais tolerante a nível religioso, e se teriam fixado em Arraiolos e aí iniciado a produção de tapetes."

Odete tece tapetes desde os cinco anos, as suas mãos ágeis criam em nós a ilusão de que é simples e rápido. Mas não é. Muita técnica e arte. Pergunto o que é mais difícil, responde sem desviar a atenção dos seus pontos: " as dores nas costas, mas habituamo-nos e quer-se fazer mais e mais para ver o resultado".


O Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos, instalado no antigo hospital na Praça do Município, foi inaugurado a 29 de Agosto de 2013. Espaço museológico de exposição e informação sobre a história e as técnicas do tapete, valorizando e promovendo este património mundialmente conhecido.
Pode ser visitado de terça a domingo das 10:00 às 13:00 e das 15:00 às 19:00

Sem pontos com passos...

Igreja da Misericórdia
 
 Coreto

 Ermida de São Romão

Castelo de Arraiolos
















4 de novembro de 2013

Nostalgia



..." Tu és a folha de outono
voante pelo jardim
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão."

Cecília Meireles, in "Canção de Outono"

24 de outubro de 2013

Um dia de chuva

Jardim Diana - Évora

"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é."

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

22 de outubro de 2013

Fado vadio no bairro da Graça

Não desprezando o eléctrico 28, um percurso diferente para visitar a Tasca do Jaime no bairro da Graça, subindo pela Mouraria.
Mouraria, Lisboa

Da Mouraria à Graça
Subir à Graça pela Mouraria é provar um pouco da essência dum bairro típico alfacinha.
Entra-se por uma rua estreita nas traseiras do multicultural Centro Comercial da Mouraria. Segue-se o instinto, sem referências, sem pressa.
Na rua estreitinha frente a uma taberna, uns sentados nos degraus de casa outrora habitadas, outros de pé, homens que habitualmente se encontram, vindos de diferentes zonas de Lisboa, tendo em comum vidas vividas, lembranças de outras eras na Mouraria.
Continuando a subir, da janela de um segundo andar, D. Maria da Conceição responde a um "boa tarde". Há dois anos na Mouraria, a Câmara arranjou-lhe esta casa, vivia há décadas ao Chile mas o prédio está a ruir. Há muito que veio da Madeira, há anos que lá não vai e tem saudades. A antiga vizinhança ficou espalhada, aqui não sente o mesmo, diz que fala pouco com os vizinhos.
Subindo uma e mais outra rua chega-se ao miradouro da Graça, esplanada repleta de locais e turistas. Lisboa aos pés e o Tejo, o castelo de S. Jorge ao lado direito e, no oposto, um pouco mais acima, o miradouro da Senhora do Monte.
Passagem pela Vila Souza, uma das vilas operárias existentes no bairro da Graça. Excepção para a Vila Bertha, nome da filha do proprietário de uma quinta que decidiu urbanizar uma parte, direccionada à pequena burguesia. Comparativamente às restantes vilas, apresenta melhor qualidade, conservando até hoje a traça original, as varandas de ferro, as fachadas ornamentadas com azulejos e o chalet onde a família morava.
Tasca do Jaime, Bairro da Graça, Lisboa

Fado, pastéis de bacalhau, vozes e guitarristas e o deslizar do eléctrico 28
Laura recebe todos que chegam à Tasca do Jaime como se cada um fizesse parte da família. Uma grande família. Sorriso aberto convida quem espreita à porta, ou porque não conhece, ou porque tenta perceber se há um espaço naquela casa pequenina cheia de alma e de vida.
Balcão corrido do lado direito. Do esquerdo, uma fila com meia dúzia de mesas cobertas de toalhas aos quadrados vermelhos e brancos. No canto ao fundo, um microfone pendurado, a viola, a guitarra e os fadistas que vão rodando a cada duas músicas. Nas paredes, retratos de fadistas, folhas de imprensa emolduradas, um nicho com Nossa Senhora.
Consumir é uma imposição para quem se senta. Não só porque o espaço é pequeno mas porque é mais económico, muitos bebem ao balcão ou vêm à porta de copo na mão e um pastel de bacalhau. Jaime, ao balcão atende os pedidos dos fregueses.
"Não sou a dona, o dono é o Jaime, o meu marido". É Laura quem orienta. Quem manda calar quando o silêncio deve reinar para que se cante o fado. "O modo de lhes pagarmos. O silêncio."
"Somos conhecidos no mundo inteiro" - tira do bolso da bata uma folha A4 dobrada, entregue há pouco por uma turista americana que teve conhecimento do lugar no país de origem. Quando a voz do fado e as guitarras descansam, Laura fala e sorri sem parar.
"É engraçado, muitos que vêem aqui pela primeira vez são trazidos por turistas". E conta como o bairro se enceu de estudantes de todo o Mundo, no projecto "500 mãos do Mundo vão mudar o bairro da Graça". Mudaram e, todos ou quase todos passaram pela tasca.
O intervalo prolonga-se e há quem pergunte quando há mais fado. Laura vem à porta e chama os guitarristas entre eles o seu filho Duarte, 17 anos, para quem as cordas dançam nos dedos. E anuncia o próximo, um jovem fadista solta de si o fado vadio, sentido, com alma e emoção.
É este jovem que depois de actuar vem à porta e, rodeado de jovens e menos jovens, conta a história do fado, entre poemas seus, desfilando retalhos de renome do fado como Alfredo marceneiro, Carlos Ramos, Fernando Maurício, Hermínia Silva, Amália Rodrigues, entre outros. O fado é a sua vida. "Deito-me com o fado, acordo com o fado", diz, e toda a sua postura o confirma. Lá dentro, mais uma voz se ouve, aplaudida no final entre vozes mais altas: "ai fadista!"

Tasca do Jaime
Morada: Rua da Graça 91, Bairro da Graça, Lisboa
Telefone: 21 888 15 69
Horário: Sábados, Domingos e feriados das 16h às 24h
Comes e Bebes: Há vários petiscos e pratos. Entre as especialidades pastéis de bacalhau, chouriço assado e prato de tapas

22 de agosto de 2013

Passo a Passo

Foto de Romulo Mendes

Passos incertos. Passos apressados. Passos coordenados. Passos que se arrastam. Passos coloridos. Passos que dançam. Passos que saltam. Passos que se fixam. Passos que correm mundo. Passos que ficam. Passos que vão. Os meus. Os teus. Os nossos passos.

7 de agosto de 2013

Amanhecer

Pela janela (Agosto 2013)

A manhã a entrar pela janela de mansinho. Aragem suave e fresca. O cheiro a café. As torradas acariciadas com compota. E o silêncio. Aquele silêncio que faz crescer o sonho.