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22 de agosto de 2013

Passo a Passo

Foto de Romulo Mendes

Passos incertos. Passos apressados. Passos coordenados. Passos que se arrastam. Passos coloridos. Passos que dançam. Passos que saltam. Passos que se fixam. Passos que correm mundo. Passos que ficam. Passos que vão. Os meus. Os teus. Os nossos passos.

7 de agosto de 2013

Amanhecer

Pela janela (Agosto 2013)

A manhã a entrar pela janela de mansinho. Aragem suave e fresca. O cheiro a café. As torradas acariciadas com compota. E o silêncio. Aquele silêncio que faz crescer o sonho.

26 de junho de 2013

ÉVORA numa noite de verão

Évora - Praça do Giraldo
(Fernanda Azougado Junho 2013)













Encontro marcado com o amigo Cupido após o jantar. "Há um bar simpático no Inatel.", "vamos lá, não conheço."
A horas, o abraço frente ao Teatro Garcia Resende. Na esplanada do "Bar do Teatro", quatro, cinco pessoas, usufruindo da noite agradável. Seguimos o nosso destino contornando o Jardim das Canas, Rua de Santa Marta, Largo de Santa Catarina e entrámos na Rua Serpa Pinto.
Ruelas calçadas, silêncios quebrados pelos nossos passos, pelas nossas palavras atropeladas de presente e passado.
E, Inatel fechado! Com sorrisos, subimos à Praça do Giraldo. 
Évora adormecia. Às 22 horas. Numa noite quente de Verão.
A esplanada do café Arcada, a terminar de empilhar cadeiras. Meia dúzia de pessoas passeavam por ali.
Virámos à esquerda e subimos a Rua Nova. Ao cimo, à direita o "Mói-te", bar com esplanada num edifício imponente, com salpicos de gente. "Queres entrar?", respondo que não, que estive ali há dias, gostei, mas queria continuar. Por ruas estreitinhas, prosseguimos.
Évora - Templo de Diana
(Fernanda Azougado Junho 2013)

Templo de Diana. Mágico. Entre as colunas, de brilho baço, misterioso, uma das torres da Sé Catedral.
E, o pequeno jardim, deserto. O quiosque que ali existe, dormindo.
Tirámos fotos, rimos, conversámos. "Será que estamos acordados?"
Contornámos o Templo, descemos em direcção à Sé, descemos a Rua 5 de Outubro e, a meio da rua, discreto...UAU! " O Pateo", bar esplanada, num páteo com árvores e um poço de outras eras.
Ali havia gente. Conversas de várias nacionalidades. Música ambiente, pessoal simpático. Único senão, fecha à meia noite. Mas, conversa agradável não tem lugar nem hora.
Évora - Praça do Giraldo
(Fernanda Azougado Junho 2013)
Descemos à Praça do Giraldo. Algumas pessoas. Poucas.
De regresso ao Teatro Garcia de Resende cruzámo-nos com o mítico "Beato Salu", que interrompeu a sua "oração" para nos cumprimentar.
Durante o nosso percurso, pensei várias vezes, de como seria agradável, neste e naquele lugar, encontrar alguém, solitário, a tocar viola e, recordei, anos atrás, em Barcelona num cantinho junto à Sé, os acordes de uma viola e de uma voz que nos chamaram e, ali ficámos sem horas a ouvi-lo, até parar porque a humidade estava a danificar as cordas.
Se também estávamos adormecidos, foi um sonho aprazível, envolto na magia de Évora numa amena noite de Verão.


9 de junho de 2013

Clarice Lispector - A força das palavras


A hora da estrela - Clarice Lispector na Fundação Calouste Gulbenkian até 23 de junho 2013
(Foto Maria da Luz)
  "O que eu sinto eu não ajo.
   O que ajo não penso
   O que penso não sinto.
   Do que sei sou ignorante.
   Do que sinto não ignoro.
   Não me entendo e ajo como se me entendesse."
A descoberta do mundo


Sentir. Aprofundar. Palavras dentro das palavras. Além das palavras. Escritas. Ditas. Pensadas. Não pensadas. A essência das mesmas. A vibrar, quais cordas que se acariciam, simplesmente. 

Uma Vida. Continuada.

27 de janeiro de 2013

Bruxelas distante

Bruxelas - Foto da Luisinha

A chuva miudinha. O céu cinzento. Sobre as casas. Sobre nós. Regresso um ano atrás. Bruxelas. Onde, na altura, daria muito para ver um pouco do nosso céu azul, um pouquinho que fosse do brilho do nosso sol.
Os passeios de sábado à tarde. O 54 na Trinité até à Porte Namur, daí o metro à estação Rogier saindo no interior do City 2. Subindo escadas rolantes, desaguando em plena Rue Neuf, ladeada de lojas de todas as marcas, montras apelativas.
A música. Vagueava pelas ruas ao som da música do Equador, (tinhamos "rendez-vous" todos os sábados). Um pouco de calor no cinzento, na chuva miudinha, no vento suave, gelado.
Obrigatória passagem pela Grand Place. Onde, bem no centro, olhando ao redor, respirava fundo. A História. As gentes. Bruxelles!
Só. Na imensa multidão. Acompanhada pela saudade das pessoas que muito queria estivessem comigo partilhando cada pequenino grande nada.
A paragem num qualquer café. Que quentinho! Um pedacinho de calor sempre acompanhado com um bombom, uma bolachinha.
Ao cair da tarde, o regresso "chez titi Connie". Enquanto aguardava o 54, imperdoável o gauffre quentinho. Ainda hoje sinto aquele cheiro e o aconchego que me proporcionava.
As luzes da cidade aqueciam, docemente, as pessoas continuavam, sem alteração, sem mais pressa, alheias ao frio, à chuva, como se os lugares de destino não se alterassem nem um pouco. Estava certo. O destino. Assim como eu, tinha certo o meu. Aquela casa acolhedora onde me sentia num qualquer lugar do mundo. Os tons amarelo e azul forte da sala de estar, o bambu, as plantas, a música africana, o calor das velas acesas, o perfume quente e suave do incenso, o carinho, as longas conversas noite fora, os telefonemas de/para Portugal, as pessoas que apareciam, da África do Sul, Holanda, Síria...
A confirmação de que se estava no coração da Europa, no centro do Mundo.

Lisboa, Fevereiro 1996

24 de janeiro de 2013

Regresso

Há viagens ida e volta. Há viagens sem regresso. Após cada viagem não somos mais a mesma pessoa. Pequenas, grandes diferenças, mas jamais se regressa igual.

Esta ausência foi uma grande viagem. Não a volta ao mundo, não muitas pequenas viagens. Uma grande viagem. Ao interior do meu ser. Dum limite que não sabia alcançar.Afinal, ultrapassamos o que pensamos ser o nosso limite.

Houve sim, viagens sem retorno. Alguém que fazia parte de mim e, que continuará em mim. E, a minha própria viagem. Regressei. Estou aqui. Diferente. Mas estou.

14 de dezembro de 2011

HOMEM MISTÉRIO

Sentado à porta do edifício do escritório,  semi levantou-se, abriu-me a porta. "Bom dia. Obrigada". Não obtive resposta.
Não dei importância. No dia seguinte,  outro e mais outro, o ritual repetiu-se.
Fui observando pequenos pormenores. Ar limpo (será um sem abrigo?), cabelos brancos pelos ombros, pele clara, ar aristocrático, olhos azul céu, intimidantes. Junto a si, dois sacos cheios, quem sabe com os seus pertences.
Em cada dia, há mesma hora, outro detalhe. Habitualmente estava a ler. Houve um dia em que ao transpor a porta, hesitei, disfarcei procurar algo na mala e de viés, olhei. Lia um livro gasto, amarelado, em inglês.
A curiosidade aumentou. Enquanto subia o elevador inventava hipóteses da vida deste homem misterioso. Mas, ao envolver-me em papéis e telefonemas, esquecia. À saída ele não estava lá.
Aos poucos, por motivo algum, o homem de olhos azul céu, invadiu os meus pensamentos. “Amanhã…” Mas, nada mais conseguia dizer, sem obter resposta “Bom dia. Obrigada”
O desejo de saber mais foi aumentando e, num dia de coragem, acendi um cigarro a poucos metros da entrada, com o pretexto de ficar à porta mais um pouco.
Não levantou os olhos do livro, não se moveu, como se sentisse que eu ia ficar. É agora! Encho o peito de ar, um nervoso miudinho e…”Gosta muito de ler?” As palavras saíram aos soluços, nervosas… Silêncio. Não levantou os olhos. “Talvez tenha dito baixinho” . Repeti. Olhou para mim, sem expressão. Sem saber se devia insistir ou entrar…olhei nas profundezas daquele azul celeste. Lentamente, uma das suas mãos procurou algo no bolso esquerdo das calças. Eu, estátua, lembro agora que não pensei em nada. Assistia. Tirou um pedaço de papel amachucado e um lápis gasto e, escreveu, de modo que eu pudesse ler”surdo mudo”. Sem saber que atitude tomar, impulsivamente, fiz um gesto  com a mão, um sorriso e entro de rompante no edifício, o coração aos saltos. “Não devia ter agido desta maneira! Mas que aborrecido, não sei comunicar com surdos mudos!”. Entro no elevador e durante o percurso a ideia luminosa “Claro que sei! Através da escrita”. No dia seguinte, munida de papel para o inicio da nossa “conversa”. Ao aproximar-me sorriu. Escrevi a pergunta que havia feito e ele não ouvira. Entreguei o papel. Pegou no seu mini lápis e com uma caligrafia perfeita, escreveu “Gosto muito”.
Embora intrigada,  não tinha elaborado mais perguntas. Uma mistura de curiosidade, encantamento deixou-me bloqueada. Sorri e entrei.
Nos dias seguintes a uma pergunta minha uma resposta sua. Adorava ler, de preferência clássicos ingleses. Gostava de sol, do cantar dos pássaros ao nascer do dia, escrever poesia., “Um destes dias dou para ler”.
Donde vinha, o que fazia, porque estava ali todas as manhãs com o que parecia ser tudo o que tinha. Perguntas que queria fazer.
 Nesse dia entreguei a folha com as perguntas escritas. Leu, levantou a cabeça e olhou-me com olhar azul sorrindo e escreveu com letra desenhada”Amanhã tem a resposta”. Despedi-me com um sorriso.
O lugar que diariamente ocupava encontrava-se vazio. Parei, sem saber se deveria esperar ou subir. Continuei a olhar o espaço de silêncio à procura de respostas. Despertou-me a atenção um rolinho de papel a espreitar. Tirei-o devagar, desenrolei, as mãos a tremer de ansiedade. Um desenho. A tinta da china. Enigmático. No canto superior da folha”Para ti”.
“À primeira vista não passava de um ser que juntara o seu corpo humano a uma cabeça equina, com cauda de sereia e escamas de serpente”.
Continuo repleta de interrogações. Nunca mais apareceu.